quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Mãe

É acerca do arcano do binário que Eliphas Lévi trata da mulher, "mãe da sociedade". Cabalista e teólogo, conferia à mulher/mãe o poder dos mistérios: "A beleza da mulher tornou-se uma presa para a brutalidade dos homens sem amor. Então, a mulher fechou seu coração como um santuário desconhecido e disse aos homens indignos dela: 'Sou virgem, mas quero ser mãe, e meu filho ensinar-vos-á a me amar'". É a referência à Virgem Maria, cuja palavra, em Lévi, será "a última palavra da revelação divina".
Na história de Andersen, surge apenas a Mãe no poder do binário. Geralmente, nos contos de fadas os pais surgem no início da história, desaparecendo depois em sua omissão e ausência diante do sofrimento da buscadora de amor. Aqui, nenhum rascunho de pai aparece, o que indica ainda mais, ao meu ver, que esse mito do amor ideal de Andersen está relacionado à anima que o autor imprime na imagem da Mãe, desdobrada ou refletida ainda na bruxa, que surge para dar vida à Polegarzinha. Filha sem pai, nascida da Mãe/Bruxa, parece que daí - dessa ausência do masculino - surge a primeira chave do sofrimento amoroso.
Sobre a anima, Jung também a reconhece nos seres mágicos femininos, sereias, ninfas e bruxas. É um arquétipo natural que "soma satisfatoriamente todas as afirmações do inconsciente, da mente primitiva, da história da linguagem e da religião...ela é sempre o a priori de humoros, reações, impulsos e de todas as espontaneidades psíquicas...ela não é a única característica do inconsciente, mas um de seus aspectos. Isso é demonstrado por sua feminilidade...Com o arquétipo da anima entramos no reino dos deuses...Tudo o que é tocado pela anima torna-se numinoso, isto é, incondicional, perigoso, tabu, mágico".
É justamente essa anima, a Mãe/Bruxa, que nos faz entrar na história fabulosa de Polegarzinha, a buscadora de amor de nossa história. E essa entrada triunfal se dá ainda com o arquétipo das duas mães, também revelada por Jung: "o motivo das duas mães, arquétipo encontrado no campo da mitologia e da religião em múltiplas variações". Traz como exemplos Santanna e Virgem Maria; o motivo da dupla descendência - de pais humanos e divinos, como na mitologia grega; e o motivo do nascido duas vezes, na concepção egípcia da divindade do Faraó. Trata, então, de algo ainda mais profundo: dos mistérios do renascimento, que também dão a base do sentido do batismo, do recebimento do Espírito Santo. Enfim, diz Jung que não podemos deixar de supor que "a fantasia do duplo nascimento e das duas mães seja um fenômeno universal, correspondendo a uma necessidade humana refletida nesse tema".